Carlos Camargo
Ligo o rádio pela manhã e me deparo com aquelas histórias
que nos deixam um pouco desconcertados. Ainda mais quando se trata de um
programa popular de uma rádio AM ou melhor, de uma rádio FM, não sei se vocês
sabem, mas as rádios que anteriormente operavam no sistema AM, agora migraram
para FM, o que faz com que a qualidade da transmissão e o alcance se tornem
ainda mais eficazes.
Estes programas em geral são feitos para agradar as classes
C, D e E pelo seu perfil de utilidade pública. E é nesta hora que o locutor costuma
fazer apelos para a comunidade quando se trata de ajudar alguém em dificuldade.
Na ocasião o locutor apresenta uma ouvinte que se encontra no estúdio para
pedir ajuda.
- Olá, Sr. Elton! Eu vim aqui para te pedir um apoio.
- Pois não! Qual o seu nome? O que se passa?
- Eu me chamo Letícia! Estou aqui para pedir ajuda. Tenho
sete filhos, meu marido está desempregado e não temos o que dar para as
crianças.
Uma mulher jovem, e que demonstra desenvoltura e força pelo
seu tom de voz. A situação, por si só, já nos deixa um pouco atônitos. Saber
que em algum lugar da cidade existem pessoas que vivem em situação de miséria,
logo num país que tinha como lema: "Brasil, País Rico é País Sem Pobreza". Saber que neste
momento, existem crianças que não tem café com leite e nem pão. Enquanto que
muitos de nós, às vezes reclamamos por coisas tão sem importância.
Me senti culpado pela situação daquela mulher, de apenas 33
anos. Era como se eu quisesse fazer alguma coisa por aquela família. E de
fato, nada podemos fazer, a não ser deixar passar o bloco dos desempregados que
trazem no estandarte os dizeres: “Que país é esse que deixa seus filhos padecerem,
enquanto há tantos desperdícios com o dinheiro público? ”
Naquele instante passei a me perguntar, e acredito que em
casa, muitos ouvintes também se perguntavam: mas que fim levou os programas
sociais implantados pelo Governo Federal, sempre utilizados como propaganda em
épocas de eleições? Programas sociais como: “Bolsa Família”, “Fome Zero”, “Mais
Médicos”, “Minha Casa, Minha Vida”, as tais políticas públicas e por aí vai. E
hoje estamos vendo as conquistas da população brasileira, ruindo como castelos
de areia. Tudo bem que hoje vivemos um pouco melhor do que há quinze, vinte
anos atrás. Mas ainda temos muito que evoluir, principalmente em se tratando de
administradores públicos, homens e mulheres, gestores com responsabilidade social. Mas nunca nos
cansamos de tentar mudar, e para melhor, é claro! Aliás, no ano que vem tem
eleições presidenciais.
E logo, o locutor avisa que os donativos poderão ser
entregues no endereço onde mora Letícia e sua família. Sendo que o caçula de
três anos, juntamente como seus irmãos ficou em casa à espera de que sua mãe
volte ao menos com uma cesta básica ou uma caixa de leite.
E assim a vida segue. Agora aquela mulher poderá dizer que
deu o seu recado. E também deixou o nome de seus filhos na listinha, para o
Natal Solidário promovido pela rádio. E todos de alguma forma se complementam, tanto
a família carente que nos vende a sua dor e faz com que a mãe venha às lágrimas
ao narrar sua história, quanto os comunicadores que atuam neste mercado cada
vez mais competitivo.
Imagem: Google

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