Manhã de
sábado. Estou absorto em meu trabalho, quando de repente ouço alguém bater
palmas em frente à casa. Levanto depressa e caminho pela calçada que dá acesso
ao portão. Imediatamente vejo um jovem que há muito tempo não via. E que também
é meu afilhado.
- Olá Juan!
A quem devo a honra de sua visita?
- Bom dia!
Como você está? Sabe o que é... É que o meu periquito fugiu. Talvez esteja na
árvore do seu quintal. Por isso eu vim aqui...
- Ah! Só
assim para você nos visitar!
Juan que
estava acompanhado de sua filha e esposa, sorri! Algo que o tempo não apagou!
Aquele riso fácil!
De repente
me vejo submerso em antigas lembranças. Como se o tempo viesse nos cobrar por
algo que deixamos para trás. E tudo depende de como reagimos diante das
vicissitudes da vida, para então mantermos a positividade que nos faz parecer
mais leves.
E o tal
periquito que fugiu, acabou sendo o motivo que faltava para que
tivéssemos a visita de Juan. Posso dizer que fiquei contente com a surpresa! E admirado dos caminhos que tomamos com o distanciamento às vezes proposital. Porém,
não é motivo para que esqueçamos dos momentos felizes que por ventura tenhamos
tido no passado.
Dona
Constância, sua mãe, que também foi amiga e comadre, não se encontra mais entre
nós! Mas deixou seis filhos. Um legado de esperança no jeito simples de viver as
pequenas batalhas da vida. Essa é uma das proezas que a fuga de um pássaro é
capaz! Fazer com que saíamos do lugar-comum para ir de encontro ao
desconhecido, ou seja, ao vale dos esquecidos.
Pois é assim
que vejo este lugar. Uma casa simples no subúrbio, que é o nosso refúgio. E é tudo que temos. Moramos em comunidades onde as pessoas não se conhecem, não se
conversam, onde parece não haver interesses entre si. É como se o morador da
casa ao lado, não tivesse rosto e nem nome.
Em meus
devaneios, penso que precisamos estreitar os laços com nossos entes queridos, resgatar
as velhas histórias de nossos antepassados. Sejam eles: seu pai, sua mãe, seus
irmãos, seu tio, sua tia.... Trazê-los todos à sombra de um araçá, no quintal da
casa, onde os pássaros buscam por abrigo e nos contemplam com o seu canto de
exortação à vida!
Foto: Arquivo pessoal
