segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Vale do Esquecidos





Manhã de sábado. Estou absorto em meu trabalho, quando de repente ouço alguém bater palmas em frente à casa. Levanto depressa e caminho pela calçada que dá acesso ao portão. Imediatamente vejo um jovem que há muito tempo não via. E que também é meu afilhado.

- Olá Juan! A quem devo a honra de sua visita?
- Bom dia! Como você está? Sabe o que é... É que o meu periquito fugiu. Talvez esteja na árvore do seu quintal. Por isso eu vim aqui...

- Ah! Só assim para você nos visitar!
Juan que estava acompanhado de sua filha e esposa, sorri! Algo que o tempo não apagou! Aquele riso fácil!

De repente me vejo submerso em antigas lembranças. Como se o tempo viesse nos cobrar por algo que deixamos para trás. E tudo depende de como reagimos diante das vicissitudes da vida, para então mantermos a positividade que nos faz parecer mais leves.

E o tal periquito que fugiu, acabou sendo o motivo que faltava para que tivéssemos a visita de Juan. Posso dizer que fiquei contente com a surpresa! E admirado dos caminhos que tomamos com o distanciamento às vezes proposital. Porém, não é motivo para que esqueçamos dos momentos felizes que por ventura tenhamos tido no passado.

Dona Constância, sua mãe, que também foi amiga e comadre, não se encontra mais entre nós! Mas deixou seis filhos. Um legado de esperança no jeito simples de viver as pequenas batalhas da vida. Essa é uma das proezas que a fuga de um pássaro é capaz! Fazer com que saíamos do lugar-comum para ir de encontro ao desconhecido, ou seja, ao vale dos esquecidos.

Pois é assim que vejo este lugar. Uma casa simples no subúrbio, que é o nosso refúgio. E é tudo que temos. Moramos em comunidades onde as pessoas não se conhecem, não se conversam, onde parece não haver interesses entre si. É como se o morador da casa ao lado, não tivesse rosto e nem nome.

Em meus devaneios, penso que precisamos estreitar os laços com nossos entes queridos, resgatar as velhas histórias de nossos antepassados. Sejam eles: seu pai, sua mãe, seus irmãos, seu tio, sua tia.... Trazê-los todos à sombra de um araçá, no quintal da casa, onde os pássaros buscam por abrigo e nos contemplam com o seu canto de exortação à vida!


Foto: Arquivo pessoal




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